Empresas podem usar inteligência artificial sem considerar riscos jurídicos?

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Uma empresa começa a usar um chatbot com inteligência artificial para atender clientes, outra adota uma ferramenta de IA para gerar minutas de contratos, e uma terceira automatiza a triagem de currículos no processo seletivo, tudo isso acontece no dia a dia corporativo, muitas vezes sem que ninguém tenha feito uma pergunta simples, mas essencial: alguém mapeou os riscos jurídicos disso?

Essa é exatamente a pergunta que a advocacia empresarial precisa ajudar as empresas a responderem antes que os problemas apareçam, e não depois.

O que muda juridicamente quando uma empresa começa a usar inteligência artificial?

A inteligência artificial não é apenas uma ferramenta tecnológica no sentido convencional, ela coleta, processa e gera informações com implicações jurídicas reais e, muitas vezes, subestimadas.

Quando uma empresa passa a utilizá-la na operação, ela assume responsabilidades que antes simplesmente não existiam ou eram significativamente mais simples de gerenciar.

Três frentes concentram os principais riscos: a proteção de dados pessoais, a propriedade intelectual sobre o que a IA produz e a responsabilidade contratual e civil decorrente de erros ou danos causados por sistemas automatizados.

E vale destacar um ponto que muitos empresários desconhecem: não existe ainda uma lei específica de IA no Brasil, mas isso não significa ausência de regulação.

O PL 2.338/2023 ainda tramita no Congresso, mas a LGPD, o Código Civil, o Código de Defesa do Consumidor e a legislação trabalhista já se aplicam, e já são suficientes para gerar passivos relevantes para quem não se preparou.

Inteligência artificial e proteção de dados: onde mora o risco?

A maioria das ferramentas de inteligência artificial processa dados pessoais, de clientes, colaboradores, fornecedores, e essa é a principal porta de entrada para problemas com a LGPD (Lei 13.709/2018).

Quando uma empresa insere dados pessoais em plataformas de terceiros, como chatbots, sistemas de análise preditiva ou automações de marketing, ela pode estar violando a lei sem perceber.

Algumas perguntas precisam ser feitas com clareza antes de qualquer implantação:

  • Quem é o operador dos dados nessa relação, a empresa ou o fornecedor da ferramenta?
  • Existe um contrato de processamento de dados adequado com esse fornecedor?
  • Há base legal definida para o tratamento dos dados que alimentam o sistema?
  • Quais os usos permitidos que essa plataforma poderá fazer dos dados pessoais lá inseridos?

O risco concreto é este: imagine um incidente de segurança com dados que passaram por uma ferramenta de IA de terceiro, sem contrato de processamento formalizado, e sem que a empresa tenha sequer notificado os titulares sobre o uso.

A empresa pode ser responsabilizada integralmente por isso, mesmo que o vazamento tenha ocorrido na infraestrutura do fornecedor.

A ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) já sinalizou atenção crescente ao tema de IA, e as fiscalizações nesse sentido tendem a se intensificar nos próximos anos.

Propriedade intelectual e inteligência artificial: de quem é o que a IA cria?

Esse é um ponto que ainda surpreende muitos empresários: conteúdo gerado por inteligência artificial levanta dúvidas sérias sobre titularidade de propriedade intelectual, e no Brasil essa questão ainda não tem resposta definitiva na lei.

A Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/1998) exige autoria humana para que uma obra seja protegida, o que significa que textos, imagens, códigos ou relatórios gerados por IA podem não pertencer a ninguém, ou, dependendo do contrato com o fornecedor da ferramenta, podem pertencer a ele.

Se a empresa usa IA para gerar contratos, peças de comunicação ou até produtos e os disponibiliza como de sua autoria, há risco real de questionamento jurídico.

Além disso, existe outro vetor de risco igualmente relevante: a empresa pode inadvertidamente usar conteúdo protegido por terceiros que foi incorporado ao modelo de treinamento da IA, o que configura violação de direitos autorais de quem nem faz parte da relação.

Na prática, isso significa que qualquer output gerado por IA que a empresa pretenda usar comercialmente, ou que tenha valor estratégico, precisa passar por uma análise de titularidade antes de ser publicado ou utilizado.

Contratos com fornecedores de inteligência artificial: o que precisa estar previsto?

Uma das situações mais comuns que encontramos é a empresa que contrata uma ferramenta de IA sem revisar os termos de uso, ou que assina um contrato padrão sem questionar o que está cedendo, e o que está assumindo.

Os termos de uso de plataformas de IA são, em sua maioria, redigidos para proteger o fornecedor, não o cliente.

Alguns pontos que precisam estar cobertos contratualmente antes de qualquer implantação:

  • Quem é responsável por falhas, erros ou danos causados pela ferramenta?
  • Qual o tratamento dado aos dados inseridos na plataforma, eles são usados para treinar o modelo?
  • Há cláusula de confidencialidade adequada cobrindo as informações estratégicas da empresa?
  • Quem detém os outputs gerados, a empresa ou o fornecedor?

O que não está escrito num contrato vai virar problema, e isso é especialmente verdadeiro quando se trata de ferramentas novas, com pouca jurisprudência consolidada.

A assessoria jurídica para empresas tem papel central nessa revisão contratual antes da assinatura, não depois de um incidente.

Como usar inteligência artificial de forma juridicamente segura?

O objetivo aqui não é desincentivar o uso de IA, essa tecnologia traz ganhos reais de eficiência e competitividade, e ignorá-la seria um erro estratégico.

O ponto é que o uso seguro exige uma camada jurídica de suporte que precisa ser construída junto com a implantação tecnológica, não separada dela.

Algumas boas práticas que qualquer empresa deveria adotar antes de avançar:

  • Mapear quais ferramentas de IA já estão em uso na operação, muitas vezes os times de marketing, RH e tecnologia já estão usando sem que o jurídico saiba;
  • Revisar contratos com fornecedores de IA, especialmente os termos de uso e as cláusulas de dados;
  • Verificar conformidade com a LGPD, incluindo a formalização de contratos de processamento de dados com operadores externos;
  • Definir uma política interna de uso de IA para colaboradores, estabelecendo o que pode e o que não pode ser inserido nessas ferramentas;
  • Comunicar os titulares dos dados acerca do uso de IA no tratamento de dados, em observância ao direito de transparência, previsto na LGPD.

A pergunta que todo empresário deveria se fazer não é se deve ou não usar inteligência artificial, essa decisão, em muitos casos, já foi tomada.

A pergunta é se o uso está estruturado de forma que não gere passivos para o que foi construído com tanto esforço. Jurídico e tecnologia precisam caminhar juntos, e esse alinhamento começa antes da implantação, não depois do problema.

Quer saber mais? Entre em contato com os autores ou visite a página da área de Direito Digital e Proteção de Dados.

 

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